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sexta-feira, 3 de junho de 2011

Violência na Amazônia: falta coragem de enfrentar o problema

Violência na Amazônia: falta coragem de enfrentar o problema

2 de junho de 2011
Por Leonardo Sakamoto
Do
Blog do Sakamoto

 O governo federal anunciou ações para evitar novas tragédias na Amazônia, como os assassinatos das lideranças rurais Maria e Zé Cláudio, no Pará, e Adelino Ramos, em Rondônia. Sem medo de estar enganado, e ainda sem o detalhamento exato das ações, tenho a certeza de que – mais um vez – isso não vai dar certo. Intensificar a fiscalização e o controle (como informado ontem) são importantes, mas não terão efeito nenhum se o próprio Estado continuar como cúmplice – por ação ou inação – dessa violência.

Para começar, para que formar uma comissão interministerial para analisar o assunto? Pelo amor de Deus! Qualquer sagui bêbado da floresta sabe a razão de se morrer a bala na região de fronteira agrícola. A violência na Amazônia não é uma doença, mas sim um sintoma. Ou seja, a fiscalização é uma parte importante – mas ameniza, não resolve. É como pegar malária e ficar tratando as dores pelo corpo com aspirina. No caso, estar sofrendo de infecção generalizada e receber um tylenol para aguentar as pontas. Ao mesmo tempo, proteger os ameaçados é importantíssimo e fundamental, mas trata sintomas e não o coração da história.

As mortes no campo são resultado de um modelo de desenvolvimento concentrador, excludente, que privilegia o grande produtor e a monocultura, em decorrência ao pequeno e o médio. Que explora mão-de-obra de uma forma não-contratual, chegando ao limite da escravidão contemporânea, a fim de facilitar a concorrência em cadeias produtivas cada vez mais globalizadas. Que fomenta a grilagem de terras e a especulação fundiária, até porque tem muita gente graúda e de sangue azul que se beneficia com as terras esquentadas e prontas para o uso. Que muito antes da época dos verde-oliva já considerava a região como um “imenso deserto verde” a ser conquistado – como se o pessoal que lá morasse e de lá dependesse fossem meros fantasmas. Que está pouco se importando com o respeito às leis ambientais, porque o país tem que crescer rápido, passando por cima do que for. Tudo com a nossa anuência, uma vez que consumimos os produtos de lá alegres e felizes.

Ou seja, causaria mais impacto de curto prazo se o governo aplicasse mais regras para o financiamento da cadeia de produção e transformação agropecuária na Amazônia, com mais condicionantes duras, e revisse seus grandes projetos de produção de energia elétrica – eles próprios indutores de problemas sociais graves nas regiões em que são instalados.

Agora, como o governo planeja mudar radicalmente tudo isso se não consegue nem orientar sua bancada a votar contra as mudanças no Código Florestal e a anistia aos desmatadores? Ou não consegue influenciar na aprovação da proposta de emenda constitucional 438/2001, que prevê o confisco de terras flagradas com escravos e que está parada há sete anos na Câmara por ação da bancada ruralista?

A verdade é que a violência na Amazônia não é uma questão do bem contra o mal para ficar sendo tratada como conto de fadas. É uma questão econômica. Tem gente que ganha muito dinheiro e, se a roda começar a girar para o outro lado, vai perder dindim. Para quebrar esse sistema, é necessário reinventar muitas práticas e sacudir o modelo. O governo federal não irá fazer isso de forma profunda nem que vaca tussa, pois é em cima dos representantes políticos das pessoas que ganham diretamente com isso que este e todos os governos que vieram antes estão assentados. Não estou pedindo aqui uma revolução socialista (alô, comentaristas deste blog, como diria Nelson Rodrigues: Cresçam!) Estou falando de regras do jogo e do respeito a elas – o que é bem capitalista, diga-se de passagem.

E a História vai se repetindo como tragédia. Na década de 80 e 90, fazendeiros resolveram acabar com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria, no Sul do Pará, um dos mais atuantes na região, e assassinaram uma série de lideranças. De acordo com frei Henri des Roziers, então advogado da Comissão Pastoral da Terra em Xinguara (PA), foi assassinado o primeiro presidente em 1985. “Depois, foi a vez de um dos líderes em 90 e seus dois filhos, que eram do sindicato. Foi assassinado, em 90, um diretor. E, em 91, mataram seu sucessor dele, além de outros que foram baleados. Passei da região do Bico-do-Papagaio para aqui a fim de ajudar na apuração desses crimes.” Os casos foram a julgamentos, houve condenações, mas os pistoleiros fugiram. Henri, foi, ele mesmo, um dos marcados para morrer no Pará e viveu sob escolta policial 24 horas por dia.

O Massacre de Eldorado dos Carajás, no Sul do Pará, que matou 19 sem-terra e deixou mais de 60 feridos após uma ação violenta da Polícia Militar para desbloquear a rodovia PA-150, completou 15 anos no dia 17 de abril. A rodovia estava ocupada por uma marcha do MST que se dirigia à Marabá para exigir a desapropriação de uma fazenda, área improdutiva que hoje abriga o assentamento 17 de Abril. Os responsáveis políticos pelo massacre, o governador Almir Gabriel e o secretário de Segurança Pública, Paulo Câmara, não foram nem indiciados. Quantos aos executores, há um longo caminho até que a Justiça seja feita.

Em fevereiro de 2005, a missionária Dorothy Stang foi assassinada com seis tiros – um deles na nuca – aos 73 anos. Ela foi alvejada numa estrada vicinal de Anapu (PA). Ligada à Comissão Pastoral da Terra, Dorothy fazia parte da Congregação de Notre Dame de Namur, da Igreja Católica. Naturalizada brasileira, atuava no país desde 1966 e defendia os Programas de Desenvolvimento Sustentável como modelo de reforma agrária na Amazônia. Dois dos fazendeiros acusados de serem o mandante chegaram a ser julgados e condenados, mas um está recorrendo em liberdade.

Você já deve ter ouvido falar de Chico Mendes, Dorothy Stang, os 19 de Eldorado dos Carajás e agora de Zé Cláudio e Maria. Mas e de Pedro Alcântara de Souza, um dos líderes da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar no Pará ,que foi assassinado com cinco tiros na cabeça em Redenção, Sul do Estado (67 mil pessoas, 162 mil cabeças de gado, quase 30% de adultos analfabetos, cerca de 40% de pobres) no ano passado? Ex-vereador, ele era um dos marcados para morrer devido à sua militância pelo direito das populações do campo e foi morto quando andava de bicicleta com a esposa por dois homens em uma motocicleta. A polícia, na época, afirmou que ele pode ter sido executado a mando de fazendeiros da região insatisfeitos.

Praticamente toda a semana, um trabalhador rural, indígena, ribeirinho, quilombola, camponês é morto na Amazônia. Alguns são mais conhecidos e ganham mídia nacional e internacional, mas a esmagadora maioria passa como anônimos e são velados apenas por seus companheiros. Além da importância de Maria e Zé Cláudio como lideranças, a morte deles ocorreu no dia da votação do novo Código Florestal na Câmara dos Deputados, o que contribuiu em dar visibilidade ao crime. E aqueles que morrem em dias de jogos da Copa do Mundo em que não há ninguém prestando atenção?

Na prática, com louváveis exceções como a de juízes com coragem de condenar escravagistas ou de procuradores que não têm dado trégua a quem mata e desmata, a Justiça tem servido para proteger o direito de alguns mais ricos em detrimento dos que nada têm. Mudanças positivas têm acontecido, mas muito pouco diante do notório fracasso até o presente momento. A se confirmar o crime de mando de mais essas mortes na Amazônia, será mais um tento marcado pela barbárie na disputa com a civilização na região.

Há um ano, a CPT entregou ao Ministro da Justiça a relação de 1.546 trabalhadores assassinados em 1.162 ocorrências de conflitos no campo nos últimos 25 anos, de 1985 a 2009. Destas, apenas 88 foram a julgamento, tendo sido condenados somente 69 executores e 20 mandantes. Dos mandantes condenados, dois estavam no xilindró, por coincidência os dois que encomendaram a morte de Dorothy Stang: os fazendeiros Vitalmiro Bastos de Moura e Reginaldo Pereira Galvão. Este último, contudo, recebeu da Justiça o direito de recorrer em liberdade.

Não foi o general De Gaulle que disse a famosa frase, mas ela é perfeita: o Brasil não é um país sério. Recebo semanalmente notícias do interior dizendo que alguém foi assassinado por defender um modelo de produção diferente. Se você não respira fundo e tenta reiniciar a CPU no final de cada dia, corre o risco de entrar em uma espiral de banalização de violência. O horror de ontem passa a ser nada diante da bizarrice de hoje, retroalimentado pela impunidade. Afinal, há mais chances de eu ser atingido na rua por um meteoro em chamas do que o Brasil garantir que os seus violadores de direitos humanos sejam sistematicamente responsabilizados e punidos.

Vamos, faça uma experiência: pegue os jornais da época de todos esses assassinatos. Pode ser apenas os dos mais famosos. Verá que é só trocar o nome dos mortos, do município (às vezes, nem isso) e onde foi a emboscada para serem a mesma matéria. As mesmas desculpas do governo, os mesmos planos de ação parecidos, as mesmas reclamações da Comissão Pastoral da Terra, os mesmos grupos sendo criados para debater e encontrar soluções. Jornalistas preguiçosos que não têm criatividade para escrever um texto diferente? Desta vez, não. O que me leva a crer que a banda podre do agronegócio nacional (e internacional), além de governos federal e estaduais, bem poderiam também serem processados por repetidos plágios da realidade.

segunda-feira, 21 de março de 2011

ENCONTRO DISCUTE A ECONOMIA CAFEEIRA NA BAHIA

Do Bahia Notícias

Com a presença do ministro do Desenvolvimento Agrário, Afonso Florence, do deputado federal e relator do Novo Código Florestal, Aldo Rebelo, e de mais de mil produtores rurais, teve início na manhã desta segunda-feira (21), em Salvador, o 12º Simpósio Nacional do Agronegócio Café, o Agrocafé. Entre os temas discutidos estão a legislação ambiental brasileira e a revitalização da atividade cafeeira baiana. De acordo com João Lopes Araujo, presidente da Associação de Produtores de Café da Bahia (Assocafé), o bom momento experimentado pela cafeicultura brasileira não é suficiente para acabar de vez com as preocupações do setor no estado, que enfrenta problemas de infra-estrutura e segurança jurídica.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Novo?*

Rui Daher
De São Paulo para Terra Magazine


Será empossado hoje o novo Congresso Nacional. Quase 600 pessoas começarão seus pesados trabalhos para o período 2011/2015, do que muitos desconfiam.

Entre senhores, senhoras e senhoritas, serão 513 na Câmara Federal e 81 no Senado legislando em nosso nome. Para isso escolhemos viver em um regime democrático e votarmos.

Importantes temas aguardam relatórios, proposições, projetos, decretos-lei, das lavra e responsabilidade de nossos representantes.

Não apenas no Brasil, mas em países de sistema similar ao nosso, os legisladores, não importando seus partidos políticos, se agrupam conforme interesses específicos.

Segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), quatro: ruralista, evangélica, feminina e sindicalista. Interessa-nos a primeira, de longe a maior: 141 deputados e 18 senadores.

Guardados os rótulos de direita e esquerda, quase 2/3 dos membros da bancada ruralista, se na França, em 1789, sentar-se-iam no lado direito da Assembleia Constituinte e apoiariam o Velho Regime.

Mas, feito está, e na levada do samba do compositor paulista Pedro Caetano (1911 - 1992), resta-nos pluralizar seus versos e aguardar: "Com esse(s) que eu vou sambar até cair no chão/Com esse(s) eu vou desabafar na multidão/Se ninguém se animar/Eu vou quebrar meu tamborim/Mas se a turma gostar vai ser pra mim".

O pior é que a quebra do tamborim pode não demorar muito. Percebe-se uma pressa danada dos ruralistas em votar o Código Florestal, assim como foi relatado pelo deputado Aldo Rebelo (PC do B - SP). Enquanto governos e organizações mundiais, em todas as esferas, investem em tecnologias que promovam a sustentabilidade da vida no planeta e valorizam economicamente a biodiversidade, aqui, em nome de uma suposta limitação da produção agrícola, procura-se detonar a legislação ambiental.

O Código vigente é de 1965 com emendas em 1989 e 2001. Dizem-no rígido, limitante e ameaçador para a atividade agrícola. Se o fosse, de lá para cá, não teríamos mais do que triplicado a produção de grãos enquanto mais do que dizimávamos nossas florestas.

Qual o motivo, então, para quererem flexibilizá-lo? Simples: Estado e Sociedade Civil mais rígidos na cobrança do respeito às leis; e a ansiada anistia para crimes já cometidos.

Incomodam-se os reformadores com as áreas de preservação permanente (APP) e de reserva legal (RL). As primeiras protegem margens de cursos d'água, nascentes e locais de acentuada declividade. As RL, representadas num porcentual da propriedade de acordo com o bioma local, exigem a manutenção de cobertura florestal por espécies nativas. Ambas seriam reduzidas.

Espera-se resistência de quem sabe o quanto esse imediatismo irá aniquilar o futuro do Brasil e de sua biodiversidade. Impossível não haver gente assim no novo Congresso. Assim como há aqueles que ajudam a agropecuária de formas mais insólitas.

No último domingo, a coluna "Painel", da "Folha de São Paulo", contou que vários dos 41 suplentes de deputado federal, que assumiram o mandato para as férias legislativas do mês de janeiro, usaram a verba de custeio da atividade parlamentar.

Entre os documentos apresentados para justificar as despesas, constavam notas fiscais de estabelecimentos como "Peixadinha Baiana", "Choperia Martins & Pavan", "Restaurante Al Mare", "Boteco das Onze" e "Nega Maluca Doceria".

Uma inequívoca contribuição ao crescimento da demanda por alimentos, ora, pois!

Rui Daher é administrador de empresas, consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola.

*Artigo originalmente publicado no site terramagazine.terra.com

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

"Ideias para Dilma"

Rui Daher
De São Paulo (SP) para Terra Magazine


A edição desta semana da sempre boa revista "CartaCapital" traz um caderno com o título acima.

Vários especialistas, entre eles Delfim Netto (Economia), Alfredo Bosi (Cultura) e Adib Jatene (Saúde), opinam sobre caminhos que ajudariam a presidente eleita a fazer um bom governo e o Brasil a subir mais alguns degraus em seu desenvolvimento.

À exceção de uma rala menção à Embrapa no capítulo sobre Ciência e Tecnologia, escrito pelo presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Marco Raupp, a agropecuária não foi chamada a opinar.

Deixa-se, assim, de lado o agronegócio, que representa mais de um terço do PIB brasileiro e 40% de nossas exportações em 2010. Pior: segundo o IBGE, esquece-se 18 milhões de pessoas ocupadas diretamente na agropecuária.

Otimistas, poderíamos crer estar tudo bem e nada precisar ser mudado. Consolidaríamos a noção de "Brasil Potência Agrícola" com base apenas nos resultados da produção e da balança comercial. Tanto a presidente como seu ministro já indicado, Wagner Rossi, poderiam descansar.

A coluna também, se assim pensasse.

A agropecuária brasileira, como de resto a do planeta, precisa muito do Estado e, se chamados, analistas, entidades e produtores rurais teriam muito a sugerir a Dilma Rousseff.

Talvez, ela não ouvisse novas e grandes ideias. A produção brasileira de alimentos muito caminhou nos últimos 50 anos.

Eu, com meus botões, para não tomar muito tempo da presidente que botões alheios predizem pegar uma conjuntura menos favorável que a de seu predecessor, sugeriria a ela três pontos.

Criar, com apoio e acompanhamento dos sistemas financeiros público e privado, e recursos do Tesouro Nacional, um seguro rural moderno, completo, com regras claras e cobertura para situações climáticas e de mercado adversas.

A banca irá gostar, pois nada pior do que ficar prorrogando dívidas e perdoando juros que nunca serão pagos.

Mais uma, presidente: não gaste um tostão com os burocratas que lhe propuserem fazer o "Planejamento Agrícola 2011/2030". É bobagem. Os agricultores já o fizeram usando o conhecimento que os burocratas iriam lhes perguntar.

No lugar, agregue recursos federais às prefeituras dos municípios com preponderância de produção agrícola familiar e dê incentivos para que a iniciativa privada instale cooperativas, unidades industriais ou de serviços, para transformação da produção primária e ocupação de mão de obra.

Outra: reveja o Código Florestal relatado pelo seu aliado Aldo Rebelo. Não tenha pressa. Esse é um assunto delicado, envolve muitos interesses partidarizados, e gente boa e equilibrada ainda não foi ouvida. Há ainda muito espaço para o crescimento da produção sem mexer no que aí está colocado.

Fome no mundo

Na semana passada prometi voltar ao assunto. Comentaria outras conclusões sobre a pobreza no relatório do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (IFAD, na sigla em inglês).

Com uma diferença: passaria do elogio à crítica.

Para o IFAD, dos países em desenvolvimento, no período entre 1988 e 2008, foi no Brasil que a produtividade do trabalho agrícola mais cresceu (123,7%). O valor agregado por agricultor saltou de US$ 1.435 para US$ 2.311. Conta feita dividindo-se o Valor Bruto da Produção pelo número de agricultores do país.

Sabe-se, pelo IBGE, que entre 1970 e 2006 a população rural declinou 7% em termos absolutos e mais de 50% em termos relativos. A mecanização cresceu 375%.

Produtividade do trabalhador?

Rui Daher é administrador de empresas, consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Ruralistas negociam Presidência em troca de Código

Renata Camargo
do Congresso em Foco


Entidades ligadas à agricultura familiar e a movimentos de reforma agrária divulgaram nesta segunda-feira (13) uma nota de repúdio à proposta de votação do requerimento de urgência do novo Código Florestal, elaborado pelo deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) com a ajuda de parlamentares da bancada ruralista. A votação da urgência está prevista para esta semana e foi acordada entre ruralistas e o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP). Segundo o acordo, os parlamentares aprovam a urgência neste ano e a votação do novo código fica para o ano que vem.

De acordo com a nota, assinada por mais de 50 entidades que pertencem ao Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo (FNRA), o projeto de Aldo "prejudicará milhares de produtores familiares e campesinos, estimulará o desmatamento florestal, comprometerá as fontes de água doce, degradará ainda mais o solo brasileiro e anistiará atividades predadoras dos recursos naturais". As entidades afirmam também que a bancada ruralista faz "qualquer negócio para dar satisfações aos financiadores de campanha" e acusam que ruralistas negociam votar a urgência em troca de promessas para apoiar Vaccarezza para a Presidência da Câmara.

"A Bancada Ruralista está fazendo qualquer negócio para dar satisfações aos financiadores de campanha. Haviam prometido que votariam o malfadado relatório do Código Florestal do deputado Aldo Rebelo (PCdoB/SP) e como não conseguiram estão apelando para aprovar um Requerimento de Urgência. Pressionam, ameaçam não votar os projetos da pauta mínima do governo e prometem apoiar o Líder do Governo, deputado Vaccarezza para presidente da Câmara", diz a nota.

As entidades afirmam ainda que a anistia das multas por desmatamentos ilegais ocorridos até julho de 2008, conforme propõe o texto de Aldo, "é uma forma de premiar os que não cumpriram a lei, incentivando condutas ilegais e penalizar os que agiram de licitamente". "Um governo que se comprometeu com a comunidade internacional em diminuir a emissão de gás de efeito estufa nunca poderia ser omisso ou conivente com suas bases parlamentares que insistem em apoiar tamanho atentado ao meio ambiente nacional e do planeta", consideraram as entidades. No documento, o FNRA pede ainda que os deputado "votem contra" o requerimento de urgência.

Leia abaixo a íntegra da nota de repúdio:

Nota de Repúdio à proposta de votar um Requerimento de Urgência do Código Florestal

O Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo (FNRA) vem se posicionar contra a votação do Requerimento de Urgência, apresentado pela Bancada Ruralista, para que o relatório do Código Florestal possa entrar na pauta de votação da Câmara dos Deputados. O FNRA avalia que o citado relatório prejudicará milhares de produtores familiares e campesinos, estimulará o desmatamento florestal, comprometerá as fontes de água doce, degradará ainda mais o solo brasileiro e anistiará as empresas madeireiras, as mineradoras, as empresas de celulose, os pecuaristas e os monocultores de soja, entre outras atividades predadoras dos recursos naturais.

A Bancada Ruralista está fazendo qualquer negócio para dar satisfações aos financiadores de campanha. Haviam prometido que votariam o malfadado relatório do Código Florestal do deputado Aldo Rebelo (PCdoB/SP) e como não conseguiram estão apelando para aprovar um Requerimento de Urgência. Pressionam, ameaçam não votar os projetos da pauta mínima do governo e prometem apoiar o Líder do Governo, deputado Vaccarezza para presidente da Câmara.

Os ruralistas, espertamente, lançaram uma isca aos produtores e produtoras familiares e campesinas acenando com a dispensa de manter a área de Reserva Legal nas propriedades rurais com até quatro módulos fiscais. Esta proposta aposta na falta de informação do povo da terra, mas eles sabem que não é desmatando que se consegue maior produtividade. A agricultura familiar e camponesa produz mais por hectare que a patronal porque é diversificada, possui modo próprio de uso da terra e conserva os recursos naturais.

Os e as agricultoras sabem que a exclusão das várzeas do conceito de área de preservação permanente é uma atitude irresponsável que causará fome em milhares de família que vive da caça de caranguejo; que a redução de 30 metros para 15 metros da área de preservação mínima para rios, vai acelerar a poluição e a falta de água potável, vai sobrecarregar as mulheres ribeirinhas e indígenas; que a liberar o desmatamento dos cimos dos morros colocará em risco a vida dos que vivem nos vales, nos pés das encostas, pois estarão sempre ameaçados de desabamento.

A anistia das multas por desmatamentos ilegais e degradações ambientais ocorridos até julho de 2008 é uma forma de premiar os que não cumpriram a lei, incentivando condutas ilegais e penalizar os que agiram de licitamente. Um governo que se comprometeu com a comunidade internacional em diminuir a emissão de gás de efeito estufa nunca poderia ser omisso ou conivente com suas bases parlamentares que insistem em apoiar tamanho atentado ao meio ambiente nacional e do planeta.

Por esses motivos e pela falta de uma discussão democrática do relatório, que foi aprovado em uma Comissão Especial majoritariamente formada por membros da Bancada Ruralista, o FNRA vem a público manifestar o seu repúdio à proposta de votar um Requerimento de Urgência.

Conclama aos Deputados Federais que votem contra o requerimento a fim de se alinharem à posição das organizações e dos movimentos sociais e sindicais.

Atenciosamente,

Fórum Nacional pela Reforma agrária e Justiça no Campo

ABRA, ABEEF, APR, ABONG, ASPTA, ANDES, CARITAS - Brasileira; COIABE, Centro de Justiça Global, CESE, CIMI, CMP, CNASI, COIABE, CNBB, CONDSEF, CONIC, CONTAG, CPT, CUT, CTB,Comissão de Justiça e PAZ, DESER, Empório do Cerrado, ESPLAR, FASE, FAZER, FEAB, FETRAF, FIAN - Brasil, FISENGE, Grito dos Excluídos, IBASE, IBRADES, IDACO, IECLB, IFAS, INESC, Jubileu Sul/Brasil, MAB, MLST, MMC, MNDH, MPA, MST, MTL, Mutirão Nacional pela Superação da Miséria e da Fome; Pastorais Sociais, PJR, Rede Brasil, Rede Social de Justiça, RENAP, SINPAF, Terra de Direitos.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Ruralistas continuam pressionando na tentativa de votação do novo Código Florestal

Mais uma investida da bancada ruralista para tentar aprovar o novo Código Florestal ainda neste ano foi fracassada nesta terça-feira (07). A bancada apresentou uma lista com aproximadamente 370 assinaturas para que o Projeto de Lei que institui o novo Código fosse votado em regime de urgência na Câmara dos Deputados. Porém, não houve acordo entre os líderes da Câmara para incluir o requerimento na ordem do dia.

A proposta de mudança no atual Código Florestal é do deputado federal Aldo Rabelo (PcdoB-SP) e está recebendo críticas de ambientalistas, movimentos sociais e especialistas em meio ambiente.

Mas, do outro lado, a proposta tem o apoio dos ruralistas. De acordo com o geógrafo Aziz Ab'Saber, esse apoio revela que a alteração do Código vigente beneficia o setor ruralista. Setor, que segundo ele, é ignorante para debater mudanças na questão ambiental no país.

“Há muito tempo os ruralistas no Brasil estão querendo modificar o Código Florestal pensando em suas pretensões. Estão pensando em seus negócios e não no país e, sobretudo, não pensam no futuro do planeta Terra. Eu ando lendo alguns textos de uma senadora que defende tudo que o deputado Aldo propôs, mas é um absurdo total, não tem senso ecológico nenhum.

Aziz defende a mudança no atual Código, mas reforça que tais mudanças devem ser feitas a partir de estudos elaborados por especialistas e com um debate com a sociedade.

“O Código deve ser feito com o envolvimento de pessoas competentes e planejadores. Não sou a favor de deixar as matas permanentemente como estão. Mas para se fazer mudanças, deve ser pensando um modo ecologicamente sustentável, para assim, se possível, conservar as reservas de biodiversidades para sempre.”

De São Paulo, da Radioagência NP, Danilo Augusto.

sábado, 20 de novembro de 2010

Ruralistas pressionam para alterar Código Florestal ainda em 2010

Por Maurício Thuswohl

A bancada ruralista no Congresso Nacional se mobiliza para aprovar ainda na atual legislatura o relatório do deputado Aldo Rebelo, que estabelece mudanças reivindicadas pelo setor

Deixada momentaneamente de lado por conta das eleições presidenciais, a batalha política travada por ruralistas e ambientalistas acerca das mudanças no Código Florestal ressurge com força total. A bancada ruralista no Congresso Nacional se mobiliza para aprovar ainda na atual legislatura o relatório do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que estabelece mudanças no Código reivindicadas pelo setor, como a redução das áreas de Reserva Legal nas propriedades particulares, a anistia às multas impostas a desmatadores e a flexibilização da produção agropecuária em Áreas de Proteção Permanente (APPs), entre outras.

Lideranças ruralistas como a senadora e presidente da Confederação Nacional de Agricultura (CNA), Kátia Abreu (DEM-TO), e o deputado federal Luiz Carlos Heinze (PP-RS) alegam que a aprovação das mudanças no Código Florestal ainda em 2010 foi acordada antes das eleições com o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP). Vice-presidente eleito na chapa de Dilma Rousseff, Temer afirma desconhecer o acordo, fato que vem causando entre os ruralistas uma apreensão que só fez crescer depois que o líder do governo na Câmara, Cândido Vacarezza (PT-SP), afirmou que o novo Código somente deverá ser aprovado na próxima legislatura.

Os ruralistas desconfiam que a idéia de jogar a votação sobre o Código Florestal para 2011 é o primeiro passo de uma estratégia para derrotar o relatório de Aldo. A presidente eleita já teria acenado aos ambientalistas do PT e de outros partidos com sua concordância quanto à apresentação de um novo texto, fato comprovado com o anúncio feito na semana passada de que o Ministério do Meio Ambiente (MMA) está elaborando e vai enviar ao Congresso um relatório alternativo ao do deputado comunista.

A ministra Izabella Teixeira, assim como os outros dois comandantes do MMA durante o governo Lula – o deputado estadual Carlos Minc (PT-RJ) e a senadora Marina Silva (PV-AC) – mais de uma vez já manifestaram publicamente seu repúdio às alterações no Código propostas por Aldo. Esse, na opinião de boa parte dos ruralistas, é um outro indicativo da vontade política do futuro governo Dilma no que se refere ao Código Florestal.

Em uma tentativa de garantir a votação do novo Código ainda este ano, o deputado Luiz Carlos Heinze procurou pessoalmente o ministro da Agricultura, Wagner Rossi – também um empresário ligado aos grandes produtores rurais e um político próximo à cúpula do PMDB – e, em particular, ao vice-presidente eleito Michel Temer. “Viemos cobrar o que acertamos com o presidente da Câmara e com o líder do governo antes das eleições, que é a votação do relatório do deputado Aldo Rebelo ainda este ano”, disse Heinze. O ministro Rossi, no entanto, negou ter tratado deste tema com o deputado gaúcho.

Cobranças
Na semana passada, ao participar da Feira Internacional da Cadeia Produtiva do Leite, a senadora Kátia Abreu fez uma cobrança pública a Temer: “Nos acordos políticos não existe papel, existe palavra. Nós confiamos que o presidente da Câmara vai cumprir sua palavra, até mesmo porque ele hoje é o vice-presidente eleito do Brasil”, disse. A presidente da CNA afirmou que os ruralistas “não querem destruir o meio-ambiente” e reclamou que “a questão ambiental no Brasil é conduzida por componentes ideológicos fundamentalistas”.

Kátia Abreu avaliou que o relatório de Aldo “não é o ideal, mas é o possível”, e afirmou contar, mesmo no caso de a votação sobre as mudanças no Código Florestal ser adiada para o ano que vem, com o apoio de Dilma Rousseff: “Quando era ministra e lançou o PAC, Dilma sofreu na pele o exagero da burocracia e do debate ideológico. Tenho certeza de que fará o necessário para o país”, disse a senadora.

Pecuaristas
O Fórum Internacional de Pecuaristas, evento que encerrado na quinta-feira (18) em Uberlândia (MG), transformou-se em foco de pressão dos ruralistas sobre o governo. Grandes produtores rurais como os presidentes da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Cesário Ramalho, e da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ), Eduardo Biagi, entre outros, defenderam as mudanças no Código Florestal sugeridas por Aldo Rebelo.

O próprio deputado foi uma das estrelas do fórum, onde fez uma palestra. “Estou confiante na aprovação do relatório. Precisamos, sem abrir mão da defesa do meio ambiente, de um Código Florestal que atenda às necessidades do setor produtivo”, disse Rebelo.

De acordo com um estudo recentemente realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a pecuária é a grande responsável pela crescente ocupação das terras agriculturáveis do Brasil. Segundo o estudo, que usou dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a pecuária ocupa hoje 200 milhões de hectares de um total de 250 milhões de hectares destinados à produção agropecuária em solo brasileiro. Outros 25 milhões de hectares são ocupados pela produção de soja.

Fonte: www.cartacapital.com.br

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Até tu, Marina? Até tu, Chico Mendes? Até tu, Aziz?


(Ilustração: Gabriel Daher)

Rui Daher
De São Paulo (SP) para Terra Magazine

Desde abril deste ano, o senhor Wagner Rossi é ministro da Agricultura. Substituiu a Reinhold Stephanes, candidato (PMDB-PR) à reeleição para a Câmara dos Deputados. Rossi também fez carreira política no PMDB e passou por cinco legislaturas.

Paulista de Ribeirão Preto (SP), na gestão anterior foi presidente da CONAB. É formado em Direito pela USP, pós-doutorado nos EUA, professor universitário, empresário e produtor rural por mais de 30 anos. Conquistas que devem orgulhá-lo.

Em artigo para o "Valor", de 11/8, ele defende o novo Código Florestal (CF), ainda não sancionado. Antes, enaltece "a preservação dos recursos naturais, o respeito pelo ambiente, a defesa da biodiversidade". Faz-nos felizes.

Quando chega à alimentação, é para dizer que "comida é vida, é sobrevivência, é combustível para existir. (...) Sem ela, não chegamos a qualquer outra atividade humana". Deixa-nos aliviados.

Desnecessário ir mais longe. O leitor inteligente já percebeu o corolário que se aproxima a passos lentos, quase pisando em ovos, e chega com uma mensagem poética: "São os produtores rurais que, no amaino cotidiano da terra, cuidam da natureza".

Não duvido, suponho até que muitos o façam, mas penso: quem, então, nas últimas décadas, apesar de um CF ferrenho, teria provocado tanta devastação ambiental?

O próprio Rossi nos dá a pista. "Pessoas que não conhecem a realidade da vida no campo (...) e por mais bem intencionadas que possam ser, estabelecem limites que oneram um setor produtivo que já enfrenta dificuldades para continuar a garantir alimento ao povo brasileiro".

Mais uma vez, o leitor perspicaz já identificou o alvo do ministro.

Sabemos que, à exceção de algumas situações pontuais que justificam adaptações no código atual, como o tratamento regionalizado dos biomas, há condições plenas de se aumentar a produção agrícola preservando as regras ambientais de hoje.

Assim pensam insuspeitos críticos do novo Código.

Aziz Nacib Ab'Saber, por exemplo, geógrafo e professor aposentado da USP, laureado mundialmente e referência em assuntos ligados aos impactos ambientais, aos 85 anos, não merece estar no rol de inocentes úteis. O mesmo pode-se dizer daqueles que dão título a esta coluna. Em palestra apresentada no último congresso da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, o geógrafo alerta para uma futura hecatombe.

Critica o desconhecimento de quem conduziu a reforma. Mostra os riscos de estadualizar "questões referentes à progressividade do desmatamento que exigem ações conjuntas de órgãos federais específicos (...) uma Polícia Federal rural, e o Exército Brasileiro".

Sugere o correto, que sempre esteve para ser feito e nunca o foi: "Focar para o zoneamento físico e ecológico de todos os domínios de natureza do país".

Aziz insiste que, antes de se mudar o CF, sem um estudo mais aprofundado, é necessário ampliar sua abrangência até um Código de Biodiversidade. Ideia que remetida a Brasília voltou com a pecha de complexa e inoportuna.

Ah, Brasília, quando os senhores conseguirão entender que complexa é a estrutura geomorfológica do país e inoportuna a interessada intervenção de Vossas Excelências?

O que Aziz e muitos inocentes que o seguem querem é informar que temos "duas principais faixas de florestas tropicais brasileiras (a amazônica e a das matas atlânticas), o domínio dos cerrados (...) a região semiárida dos sertões nordestinos, os planaltos de araucárias e as pradarias mistas do Rio Grande do Sul, além do litoral e do Pantanal mato-grossense". Cada um com mosaicos vegetais específicos.

Deveríamos ouvi-los.

Rui Daher é administrador de empresas, consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola.

Governo prepara projeto alternativo ao novo Código Florestal

É grande a expectativa quanto à apresentação do Projeto de Lei do governo que substitui o Código Florestal, de 1965. A previsão é que a proposta fique pronta ainda nesta semana, mas deverá ser enviada ao Congresso somente no próximo ano. O objetivo é evitar desgaste político nos últimos dias do governo Lula.

O Projeto do governo é uma alternativa ao novo Código Florestal, aprovado no início de julho por uma comissão especial da Câmara dos Deputados. Criticado por ambientalistas e organizações sociais, o novo Código teve como relator o deputado federal Aldo Rebelo (PC do B) e aguarda votação nos plenários da Câmara e do Senado.

Uma dos pontos mais polêmicos da proposta de Aldo é a possibilidade de anulação das multas aplicadas em produtores rurais que desmataram reservas ambientais no período anterior a julho de 2008. Eles não estariam mais obrigados a recuperar as áreas degradadas.

O Código também reduz de 30 para 15 metros a área de vegetação que deve ser preservada na margem de rios. A criação de planos de regularização ambiental, no prazo de cinco anos, ficaria sob responsabilidade dos estados. O governo alega que as propostas de Aldo incentivam o desmatamento e prejudicam compromissos assumidos pelo Brasil, como as metas de redução dos gases de efeito estufa.

De São Paulo, da Radioagência NP, Jorge Américo.