Valorizar os servidores do Ministério do Desenvolvimento Agrário é valorizar a reforma agrária, a agricultura familiar e o desenvolvimento rural sustentável e solidário!

quinta-feira, 24 de março de 2011

A força das mulheres contra a fome

José Graziano da Silva

Não constitui exclusividade brasileira a triste evidência de que a exclusão tem rosto e gênero e pode ser personificada na figura de uma mulher pobre, de baixa escolaridade, trabalhadora rural. O que nem sempre é lembrado é que a redenção desse símbolo da desigualdade pode significar, também, a redenção de um pedaço expressivo da fome, tornando a superação das discriminações de gênero no acesso à terra, ao crédito e a insumos uma das prioridades da luta pela segurança alimentar em nosso tempo.

O alcance dessa agenda não pode ser subestimado.

Nos países pobres e em desenvolvimento, 43% da força de trabalho agrícola é formada por mulheres. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) acaba de demonstrar na edição 2010-2011 de sua publicação "O Estado Mundial da Agricultura e da Alimentação" que as restrições de gênero provocam uma produtividade de 20% a 30% menor nas lavouras sob controle feminino, em comparação com áreas equivalentes sob comando masculino.

A igualdade de acesso à terra, insumos e crédito poderia elevar a oferta de alimentos em até 4%, tirando de uma condição de subnutrição de 100 milhões a 150 milhões de pessoas num universo de quase um bilhão de famintos. Fechar o abismo de gênero traria desdobramentos ainda mais expressivos em economias asiáticas e africanas, onde se entrecruzam as manchas de fome mais densas do planeta e, não por acaso, as demografias femininas mais significativas da agricultura.

Enquanto na América Latina e Caribe a participação feminina na mão de obra agrícola é da ordem de 20%, na Costa do Marfim já atinge 36%; bate em 60% no Lesoto, Moçambique e Serra Leoa, sendo superlativa em praticamente toda a África subsaariana. Em muitos casos, tal hegemonia espelha o saldo de conflitos e doenças, como o HIV, ademais do êxodo maciço da força de trabalho masculina.

Razões migratórias distintas, decorrentes sobretudo da aceleração do ciclo industrial, têm peso significativo na China, onde a mulher representa 48% da mão de obra rural com viés ascendente. No Vietnã, quase 50% da produção de arroz, uma das mais importantes do mundo, tem por trás mãos femininas.

Independente da latitude, as produtoras rurais têm menor acesso à terra, a sementes, fertilizantes, ferramentas, tecnologia, extensão e crédito. O desequilíbrio se reproduz no controle das criações que representam 40% da renda no campo. Em todo o mundo, aproximadamente 400 milhões de mulheres agregam o cuidado dos rebanhos aos afazeres domésticos, que incluem a responsabilidade pelos filhos e a alimentação, bem como a de assegurar o suprimento de lenha para o fogo e água limpa para consumo.

A discriminação de gênero gera paradoxos desconcertantes. À medida que a demanda por proteína animal cresce no planeta e os pequenos rebanhos dão lugar a criações intensivas as titulares tradicionais são preteridas. Se tivessem acesso a linhas de crédito específicas para expandir seu próprio criatório - bovino, suíno ou a piscicultura - esse deslocamento seria significativamente menor.

A transição alimentar, ao mesmo tempo, abre uma janela de oportunidade à construção um novo estatuto de gênero no campo. Um leque cada vez mais variado de verduras e frutas frescas, mas também de carnes especiais, peixes, temperos e vegetais semipreparados atende à sofisticação do consumo urbano atualmente, indo ao encontro das aptidões femininas para reafirmar a urgência da democratização de direitos e oportunidades.

Entre as barreiras a serem superadas, uma das mais importantes é a extensão rural. Estudos anteriores da FAO (1988/89) em 97 países demonstraram então que apenas 5% da assistência técnica era dirigida às mulheres, que por sua vez representavam apenas 15% dos extensionistas.

Embora desvalorizadas, elas desempenham papel cada vez mais relevante nas decisões comerciais, sendo o personagem oculto por trás das análises de contratos e compromissos de compra e venda assinados pelos seus companheiros. No Brasil, desde a criação do Fome Zero em 2003 os programas de transferência de renda associaram o seu sucesso a essa aptidão administrativa, dando o cartão de benefícios à mulher da família.

Hoje, 93% dos repasses do Bolsa Família tem a mulher como titular. Idêntica percepção incentivou a criação do Pronaf-Mulher na área do crédito agrícola e canalizou às agricultoras volumes crescentes (24% atualmente) dos recursos destinados à aquisição de safra da produção familiar. A titulação conjunta da terra, obrigatória na política agrária brasileira, é outra conquista exemplar, a contrapelo da discriminação. Precede a essas decisões uma providência ao mesmo tempo simples e crucial: promover a documentação da agricultora, inclusive seu credenciamento comercial, para que possa, de fato, assumir as rédeas do seu negócio.

Num mundo de especulação financeira e eventos climáticos extremos, muitas vezes impermeáveis à ação local, superar a desigualdade de gênero nas políticas agrícolas não pode ser visto como um fardo. A força da mulher na luta contra a fome constitui um trunfo adormecido cujo despertar não pode mais ser adiado.

José Graziano da Silva está licenciado do cargo de Representante Regional da FAO para América Latina e Caribe

segunda-feira, 21 de março de 2011

Com discreto aval do Planalto, Contag avança sobre base da CNA

Mauro Zanatta de Brasília para o Valor Econômico

As relações sindicais no campo estão prestes a mudar. Um projeto de lei, que depende apenas de um pedido de urgência para ser levado ao plenário da Câmara, altera o enquadramento de mais de meio milhão de filiados para fins de contribuição sindical.

A modificação na Lei Sindical, já aprovada em três comissões da Câmara, abre uma guerra entre a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA). Em jogo, está a disputa por influência política, controle de milhares de pequenos produtores em todo o país e por um cofre recheado pela contribuição obrigatória imposta por lei. Estima-se uma arrecadação superior a R$ 130 milhões no sistema CNA.

O projeto, de autoria do deputado Assis do Couto (PT-PR), aumenta, de dois para quatro módulos, o tamanho da propriedade ligada à Contag. Cada módulo tem entre 20 hectares no Sul e 400 hectares na Amazônia. Dessa forma, a CNA perderia algo como um terço de sua arrecadação, além da representatividade da classe estimada em 1,2 milhão de produtores. E sem nenhuma compensação. Ao contrário, o projeto retira punições hoje impostas pela Lei Sindical. Quem não paga em dia, vai para o cadastro de inadimplentes do governo federal (Cadin), o que bloqueia a concessão de incentivos fiscais e crédito rural ao produtor.

O projeto, patrocinado pela Contag desde 2003, altera o status do pequeno produtor, de categoria econômica para classe profissional. E introduz o conceito de agricultura familiar: mão-de-obra familiar, até quatro módulos fiscais, sem empregados, renda predominante da área, moradia na propriedade ou próxima dela.

O projeto também confere aos 4 mil sindicatos ligados à Contag musculatura para resistir ao avanço de uma concorrente de peso: a Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf Brasil), criada em 2004, mas que já tem 500 mil filiados em 600 sindicatos de 18 Estados.

Hoje, todos os produtores com propriedades acima de dois módulos fiscais, e sem empregados, têm que contribuir para a CNA. Cerca de um terço dos filiados da CNA estão entre dois e quatro módulos. A Contag domina a representação até dois módulos fiscais, e sem empregado.

A contribuição sindical rural é feita com base nas chamadas "classes de capital social" ou no 'valor da terra nua tributável". São seis níveis. O primeiro, com valores de até R$ 2,7 mil, paga-se R$ 22. No último nível, acima de R$ 29,5 milhões, o imposto sobe a R$ 10,5 mil. Há valores adicionais para as classes intermediárias - de R$ 33 a R$ 4,5 mil.

Nos bastidores, a briga já esquentou. "Está em jogo a base do sistema sindical brasileiro. O projeto quer ter a representação em um só sindicato ou confederação", diz o vice-presidente da CNA, José Ramos Torres de Melo. Para ele, "não faz sentido" uma família, "sozinha" explorar 360 hectares apenas com mão-de-obra familiar. "É uma tentativa de fragilizar o sistema patronal com um critério ideológica sem base na realidade. É uma luta de poder insensata, pouco inteligente, de conceitos subjetivos e aleatórios", diz Melo.

Com apoio da bancada do PT e discreto aval do Palácio do Planalto, a Contag defende o projeto. "A lei é de 1971. A sociedade evoluiu, criou um ministério, uma lei da agricultura familiar. Temos que readequar isso", argumenta o presidente da Contag, Alberto Broch. Ele diz que o conceito de agricultura familiar já prevalece na Previdência, na reforma agrária e nos programas como Pronaf. "Essa é uma prioridade nossa. Tudo evoluiu para a conceituação de até 4 módulos fiscais. Quando trata da representação sindical, esse público de contribuição que está com a CNA é o nosso".

A Contag testará o apoio ao projeto durante o movimento Grito da Terra, marcado para meados de maio. E apresentará sua reivindicação ao governo e no Congresso. Como a pauta é negociada antes disso, certamente haverá um consenso para votar a urgência na Câmara em abril ou início de maio. Para isso, também terá o amparo da recém-criada Frente Parlamentar da Agricultura Familiar, que reúne 226 deputados e senadores.

ENCONTRO DISCUTE A ECONOMIA CAFEEIRA NA BAHIA

Do Bahia Notícias

Com a presença do ministro do Desenvolvimento Agrário, Afonso Florence, do deputado federal e relator do Novo Código Florestal, Aldo Rebelo, e de mais de mil produtores rurais, teve início na manhã desta segunda-feira (21), em Salvador, o 12º Simpósio Nacional do Agronegócio Café, o Agrocafé. Entre os temas discutidos estão a legislação ambiental brasileira e a revitalização da atividade cafeeira baiana. De acordo com João Lopes Araujo, presidente da Associação de Produtores de Café da Bahia (Assocafé), o bom momento experimentado pela cafeicultura brasileira não é suficiente para acabar de vez com as preocupações do setor no estado, que enfrenta problemas de infra-estrutura e segurança jurídica.

quinta-feira, 17 de março de 2011

União freia compra de terra por estrangeiro

Mauro Zanatta de Brasília para o Valor Econômico

O governo está determinado a conter e reverter o avanço de investidores estrangeiros em terras brasileiras. A Advocacia-Geral da União (AGU) enviou ontem um ofício ao Ministério da Fazenda orientando a instituição a criar regras, por meio de instruções da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), para impedir a aquisição de ações de companhias brasileiras detentoras de terras, e listadas na Bolsa de Valores, por empresas de capital estrangeiro.

O documento foi enviado, de forma reservada, ao ministro Guido Mantega em caráter de urgência. Por recomendação da AGU, a medida deve abranger todas as companhias de capital aberto detentoras de terras do país, segundo apurou o Valor.

Hoje, a empresa mais cobiçada nesses negócios é a SLC Agrícola, cujos ativos contêm uma ampla extensão de terras em vários Estados. Ela é um exemplo da situação que o governo procura evitar.

Mesmo sem ter capital aberto, a Radar, criada pelo grupo Cosan para administrar terras, também seria atingida pela medida do governo. A AGU enviou um ofício ao Ministério do Desenvolvimento recomendando o bloqueio de aquisições e fusões a partir da informação das Juntas Comerciais.

As compras de terras por estrangeiro vinham sendo fechadas com base em parecer da Advocacia-Geral da União (AGU) que dispensou autorização para a aquisição de imóveis rurais no país. Até 1995, o Artigo nº 171 da Constituição, depois revogado, permitia a distinção entre dois conceitos: empresa nacional de capital estrangeiro e companhia controlada por acionistas não residentes no país ou com sede no exterior. Nos debates internos, a AGU avalia ser uma questão de soberania garantir as terras exclusivamente para brasileiros. Os especialistas argumentam que a terra "é o que o país tem de melhor" e que não pode "sair vendendo" a qualquer preço.

De 2002 a 2008 houve uma avalanche de investimentos estrangeiros em terras no país. Dados do Banco Central apontam para aporte de US$ 2,43 bilhões no período. Se consideradas todas as atividades do agronegócio, como agroindústrias e serviços, a conta chega a US$ 46,91 bilhões em sete anos.

A decisão da AGU também abre a possibilidade de questionamentos jurídicos nos casos de aquisições e fusões anteriores à sua interpretação da Lei nº 5.709, de 1971. O texto limitava as compras a um quarto da área de cada município e previa que cidadãos de mesma nacionalidade não podiam ser donos de mais de 40% desse limite.

O governo avalia que precisa "fechar a porta" para novos avanços de estrangeiros, sobretudo chineses e árabes, que buscam no Brasil uma forma de garantir abastecimento alimentar. A AGU entende que a terra tem papel estratégico, além das questões comerciais.

Dados inéditos do cadastro rural do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) mostra que, até 2008, haviam 4,04 milhões de hectares registrados por estrangeiros. São 34.218 imóveis concentrados em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Bahia e Minas Gerais.

A AGU entende que o país tem muita terra, muita produção, mas precisa ter planejamento e instrumentos para garantir comida a mais de 200 milhões de habitantes no futuro. O governo avalia que a interpretação da lei é "viva" e pode mudar a cada período de tempo. O que antes demorava 30 anos para "caducar", hoje leva cinco anos.

O panorama produtivo mudou desde 1998, quando a própria AGU deu um parecer equiparando empresas de capital estrangeiro a companhias brasileiras. A exigência por zoneamentos econômicos-ecológicos (ZEE) poderia ficar manietada em caso de propriedade estrangeira da terra. Se o governo precisar induzir a produção de determinado produto em uma região específica, como ficaria a situação? Essa questão também ajudou a nortear a decisão da AGU.

quarta-feira, 16 de março de 2011

FAO alerta para risco de nova crise mundial alimentar

Reuters, 14/03/2011

ABU DHABI (Reuters) - O aumento nos preços globais de gêneros alimentícios básicos eleva o risco de que a crise alimentar de 2007-2008 em países em desenvolvimento se repita, disse nesta segunda-feira o comandante da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO na sigla em inglês).

Um salto nos preços do petróleo e o rápido consumo dos estoques globais de cereais poderiam ser um prenúncio da crise de abastecimento, disse o diretor geral da FAO, Jacques Diouf, à Reuters, em entrevista durante uma visita aos Emirados Árabes Unidos.

"A alta dos preços aumentam as preocupações e estamos reduzindo rapidamente os estoques", disse. "Durante anos temos alertado que é preciso maior produtividade e investimento em agricultura."

O índice de preços alimentares da ONU de fevereiro aumentou pelo oitavo mês consecutivo, para o maior nível desde, pelo menos, 1990. Todos os grupos de commodities, exceto o açúcar, aumentaram no último mês.

Diouf dizia, até alguns meses atrás, que os estoques globais de cereais estavam em níveis mais saudáveis que os restritos estoques que desencadearam a crise em 2007 e 2008.

Em julho passado, os níveis de estoque estavam em um total de 100 milhões de toneladas acima que os de 2007, mas o rápido crescimento econômico em países em desenvolvimento e um retorno ao crescimento em países altamente industrializados, levaram a novas reduções.

Alguns países no norte da África e no Oriente Médio fizeram grandes compras de grãos para evitar aquele tipo de conflito, em parte estimulada pelos preços dos alimentos, que derrubou os líderes da Tunísia e do Egito.

A Coreia do Sul está buscando construir uma estratégia de reserva de grãos e planeja comprar cargas de milho e outras mercadorias, em esforço similar ao de outra nações asiáticas, preocupadas com os altos preços dos alimentos e com os conflitos sociais.

Em dezembro, o México comprou milhares de toneladas de milho no mercado futuro, para se proteger de altas dos preços de tortillas, que provocou confrontos nas ruas em 2007.

"É algo racional de se fazer, para se proteger", disse Diouf.

O recente aumento dos preços do petróleo, que subiu para cerca de US$ 120 o barril no mês passado, está exacerbando os aumentos nos preços dos alimentos, que podem afetar a habilidade dos países em desenvolvimento de cobrir suas necessidades de importação, disse Diouf. Os preços do petróleo têm impacto nos custos de transporte e insumos agrícolas, incluindo fertilizantes.

Biocombustíveis

A FAO pediu aos países desenvolvidos que reexaminem suas estratégias de biocombustíveis --que incluem amplos subsídios-- uma vez que estes têm desviado 120 milhões de toneladas de cereais de consumo humano para produção de combustível.

"Estamos aconselhando os países membros a revisitarem suas políticas", disse Diouf. "Contar com mais energia renovável não significa que você precisa produzir mais biocombustível."

Países desenvolvidos dão US$ 13 bilhões anualmente em subsídios e proteção, para encorajar a produção de biocombustíveis, disse Diouf. Nos Estados Unidos, os estoques de milho chegaram a mínimas de 15 anos, enquanto maiores parcelas da safra são utilizadas na produção de etanol.

Evitar outra crise alimentar depende dos rendimentos da safra na próxima temporada de colheita, bem como do impacto do crescimento econômico sobre a demanda, segunda Diouf. Porém, ele também afirmou que o aumento do preços dos alimentos e do petróleo podem ter efeito prejudicial no crescimento.

Ainda é cedo para determinar se o recente terremoto e tsunami no Japão, maior importador de grãos do mundo, terá qualquer efeito na oferta global ou na demanda por produtos agrícolas, acrescentou Diouf.

terça-feira, 15 de março de 2011

Reunião entre a ASSEMDA e o gabinete do ministro

A ASSEMDA reuniu-se no dia 23 de fevereiro com a equipe do Ministro do Desenvolvimento Agrário, Afonso Florence. Após um ano de tentativas de se reunir com a gestão do Ministério do Desenvolvimento Agrário, o gabinete do ministro (representado pela Secretária Executiva Márcia Quadrado, pelo Chefe de Gabinete Welliton Rezende e o Secretário Executivo-Adjunto Jerônimo Rodrigues) recebeu a ASSEMDA, no dia de 23 de fevereiro, para tratar de questões políticas e de trabalho no MDA. A delegação da ASSEMDA foi composta por 10 pessoas entre diretores e conselheiros da ASSEMDA, além de associados da base da entidade.

A reunião foi aberta pelos representantes da ASSEMDA que apresentaram a "Carta ao Novo Ministro", enviada ao Ministro Afonso Florence após sua posse. Os onze pontos presentes na carta foram agrupados em seis eixos centrais: 1) questões salariais, 2) terceirizações irregulares e novo concurso público, 3) democracia e participação no MDA, 4) capacitação e formação, 5) condições de trabalho e 6) qualidade de vida. 

No primeiro eixo foi exposto a necessidade de equiparação salarial entre os servidores de nível superior que, após a promulgação da lei 12.277, possuem uma estrutura remuneratória diferenciada, e também de um aumento proporcional para os servidores de nível médio. Ainda dentro desse ponto, a diretoria salientou que apesar dessa medida representar uma melhoria salarial ela não resolve o problema remuneratório do ministério, que causa evasão de servidores para outros órgãos em busca de melhores salários, sendo necessário a implantação de um Plano de Cargos e Remuneração no ministério. A ASSEMDA pediu que o ministro se comprometesse a apoiar esta pauta remuneratória junto ao Ministério do Planejamento, orgão responsável por decidir a política de recursos humanos do governo federal em geral.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Jornada das Mulheres da Via Campesina mobiliza nove estados contra os agrotóxicos

A Jornada de Lutas das Mulheres da Via Campesina já mobilizou nove estados denuncia os impactos para a saúde humana e para o ambiente do uso abusivo dos agrotóxicos e aponta a responsabilidade do modelo de produção do agronegócio.

Em todo o Brasil, as camponesas, em conjunto com outros movimentos urbanos, denunciam que o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, inclusive de agentes contaminantes totalmente nocivos a saúde humana, animal e vegetal que já foram proibidos em outros países do mundo.

Segundo dados do Sindicato da Indústria de Defesa Agrícola, os estados de Mato Grosso, Paraná e São Paulo são, respectivamente, os maiores consumidores de veneno.

Nesta quarta-feira, aconteceram atividades em três estados: Ceará, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

Confira o que aconteceu estado por estado:


No Rio de Janeiro, cerca de 300 mulheres trabalhadoras do campo e da cidade ocuparam a sede do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), no centro da capital carioca. O objetivo da mobilização é denunciar os altos investimentos e empréstimos do BNDES à indústria dos agrotóxicos e às transnacionais da agricultura, que compram e lançam os venenos agrícolas nas lavouras brasileiras.

No Ceará, mais de 1.000 mulheres dos movimentos sociais do Ceará, como o MST, o Movimento dos Conselhos Populares e a Central dos Movimentos Populares, fazem duas marchas para denunciar os impactos negativos para a saúde humana e para o ambiente com uso excessivo de agrotóxicos no Brasil e os impacto.

Em Fortaleza, mais de 600 mulheres marcharam até Palácio da Abolição, do governo do Estado, para denunciar a política de isenção fiscal que beneficia as indústrias de venenos e amplia o consumo de agrotóxicos em todo o estado. Em Santa Quitéria, 500 mulheres protestam contra a instalação da mina de Itataia.

Cerca de 500 mulheres da Via Campesina estão reunidas nesta quarta feira em Curitibanos (SC), no parque de exposição Pouso dos Tropeiros, com o lema, “Contra o agronegócio, em defesa da soberania popular”. O encontro iniciou com uma mística relembrando o porquê do 8 de março ser um dia de luta das mulheres trabalhadoras. No momento em que acontece o encontro, uma comissão está reunida com o governo do estado para reivindicar a pauta.

Na Bahia, 500 trabalhadoras rurais e urbanas realizaram uma caminhada em Vitória da Conquista em frente a Prefeitura e aos Bancos do Nordeste e Brasil para a reivindicação da liberação do Pronaf Mulher, renegociação das dívidas das assentadas e a construção de creches nos assentamentos. Em Petrolina, mais 500 camponesas ocuparam a sede do INSS junto com MPA, MAB, CPT, IRPA, Quilombolas e Pescadoras, para cobrar a implementação dos processos de aposentadoria das trabalhadoras rurais, auxílio doença e o salário maternidade.

Em Eunápolis 1500 mulheres ocuparam a fazenda Cedro pertencente à multinacional Veracel, no município de Eunápolis no dia 28/2. Hoje, as camponesas trancaram a BR 101 por duas horas. As trabalhadoras denunciam a ação do agronegócio no extremo sul da Bahia, com a produção da monocultura de eucaliptos praticada pela Veracel na região de maneira irregular, pois ocupa terras devolutas. Encontros para discutir a agricultura camponesa e sementes crioulas também estão previstos para os dias 05 a 10 de março, envolvendo os municípios de Pindaí, Caetité, Riacho do Santana, Rio do Antônio, Caculé, Brumado.

Em Pernambuco, 800 trabalhadoras rurais ligadas ao MST, ao Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), ao Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB) e à Comissão Pastoral da Terra (CPT) marcharam na manhã desta terça-feira (1/3) de Petrolina a Juazeiro, trancando a ponte que liga os dois municípios, denunciando a inoperância do Incra da região. No dia 28/2, mais 500 mulheres ocuparam o Incra da cidade de Recife como forma de chamar a atenção para a Reforma Agrária.

No Rio Grande do Sul, cerca de 1.000 mulheres da Via Campesina, Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD), Levante da Juventude e Intersindical protestaram no dia 1/3 em frente ao Palácio da Justiça, na Praça da Matriz em Porto Alegre. Elas saíram em marcha do Mercado Público de Porto Alegre até o local. Integrantes vestidas de preto estiveram paradas em frente ao prédio, em silêncio, para lembrar que as mulheres têm sido silenciadas por várias formas de violência. Na mesma cidade, cerca de 1.000 mulheres ocupam o pátio da empresa Braskem, do grupo Odebrecht, no Pólo Petroquímico de Triunfo, região metropolitana de Porto Alegre. A manifestação tem o objetivo de denunciar que o plástico verde, produzido à base de cana-de-açúcar, é tão nocivo e poluidor quanto o plástico fabricado à base de petróleo.

Já em Passo Fundo (RS), 500 mulheres realizaram uma manifestação pública no centro, com atividades de formação no Seminário Nossa Senhora Aparecida.
No Sergipe, cerca de 1000 trabalhadoras rurais do estado estão acampadas na Praça da Bandeira de Aracaju. De 1 a 3 de março, elas participarão de atividades que denunciam os agrotóxicos, o agronegócio, a criminalização dos movimentos sociais e a violência da mulher.

Em Minas Gerais, o Fórum Regional por Reforma Agrária do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba ocupou a sede da Fazenda Inhumas, em Uberaba, no sábado (26/2), em ação que envolveu 200 famílias. O evento marca as atividades do 8 de março e discutirá com cerca de 500 mulheres a violência causada pelo agronegócio, as consequências do uso de agrotóxicos e as alternativas para transformação do modelo discriminatório estabelecido no campo e na cidade.

Em São Paulo, desde o início desta sexta-feira (25/2), várias mulheres do MST, realizam ato de denúncia e reivindicação na frente da Prefeitura de Limeira, próximo da Campinas. No último dia 24/2, cerca de 70 mulheres do MST e da Via Campesina realizaram a ocupação da prefeitura do município de Apiaí, localizado na região Sudoeste de São Paulo para reivindicar o acesso aos direitos básicos como: saúde, educação, moradia, transporte e saneamento básico, que vendo sendo negados pelo município às famílias acampadas.

Contato com a imprensa
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Igor Felippe (SP)- 11-9690-3614

Mulheres do MST ocupam terras da Multinacional Veracel em Eunápolis

Mais de 1.500 mulheres integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ocuparam por volta das 05:00h da madrugada desta segunda feira, 28 de fevereiro de 2011, a fazenda pertencente a empresa Veracel Celulose que fica localizada a oito (8 Km) do centro de Eunápolis, numa área conhecida como região da Roça do Povo.

De acordo com as Líderes do movimento, a ocupação sistemática das mulheres militantes do MST na área da Veracel, faz parte do calendário das comemorações do dia 08 de março, Dia Internacional das Mulheres, informaram também que outras ocupações poderão ser realizadas em outras áreas, no estado da Bahia.
Em entrevista ao portal de notícias VOCEAKI, a dirigente Eliane Oliveira, falou sobre os motivos da ocupação: "Nós mulheres do MST, estamos felizes por realizar esta ocupação, já faz tempo que estamos fazendo esse enfrentamento com o agronegócio na região de Eunápolis e aqui é a veracel. Essa é a primeira ocupação que nós mulheres fazemos no estado da Bahia e amanhã é o dia 1º de março, o mês que se comemora o dia Internacional das Mulheres, quem sabe, a nossa presidente Dilma, se sensibilize e coloque em pauta a reforma agrária que até o momento, ela nao se pronunciou sobre essa questão social. Estamos reivindicando: Projetos para as Mulheres, Políticas Públicas para as Mulheres, Reforma Agrária para assentar 4.500 famílias acampadas na Regional Extremo Sul. Entendemos que se o governo federal e estadual quiserem, a reforma agrária acontecerá. Nós queremos que o governo analise e veja de que forma vai assentar essas famílias, enquanto isso, o agronegócio cresce na região", desabafou a militante.

Lucinéia que também é uma das líderes da ocupação, disse à nossa Reportagem: "Estamos ocupando esta área porque faz parte da jornada de luta do MST Nacional, em abertura das comemorrações do dia Internacional da Mulher. A veracel é a simbologia do agronegócio na região, que concentra terras, que planta em monocultivo, que não distribui rendas e portanto nao muda a vida das pessoas. Há mais de 11 anos estávamos fazendo acampamentos temáticos em Salvador, realizando seminários para debater as questões que nos afligem no nosso cotidiano, agora resolvemos fazer acampamentos no extremo sul da Bahia. Estamos fazendo esta ação, ocupando uma área de um latifúndio do agronegócio, para questionar com legitimidade, quais as metas e prioridades do governo Dilma para a reforma agrária. Estamos reivindicando as terras concentradas no poderio do agronegócio, para serem distribuidas ao agricultores, aos trabalhadores e trabalhadoras, queremos dignidade, onde contemple a saúde, a educação, uma qualidade de vida melhor para nossas famílias, portanto, queremos a reforma agrária já", explicou ela.

As militantes do MST armaram tendas e barracas, como acontece em outros acampamentos, estavam portando facões, foices, enxadas e já iniciaram uma plantação de feijão e milho. Foi improvisado no local barracões para servirem de escola para as crianças, visto que no grupo existem dezenas de alunos e professores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

A discussão em torno da participação das mulheres Sem Terra na luta por Reforma Agrária e pelo fim da discriminação, vem desde o começo do MST. A própria forma de organização do Movimento leva essas mulheres a buscarem a superação das desigualdades, tanto econômica como de participação no MST. Todos os anos no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, as mulheres do MST colocam em pauta suas reivindicações.

Já faz alguns anos que está sendo feito esse debate para transformar o 8 de março em um dia de luta das mulheres no MST, essa data foi se tornando um dia de valorização da beleza, do comércio e da confraternização.

Evanildo Costa, Coordenador regional do MST, comentou sobre a ocupação das mulheres na área da Veracel: "Esta ação foi amplamente composto por mulheres do movimento, que além de participarem das lutas do cotidiano,  têm o foco nas garantias dos seus direitos e de suas familias. Foi um ato grande, ato de tantos outros organizados e executados pelas mulheres sem terras", finalizou Evanildo.

Compareceram ao local da ocupação, os Dirigentes do MST, Paulo César, o PC, Luciano, Preto, Evanildo Costa e Márcio Matos, o Marcinho da Direção Nacional do Movimento.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

MDA se reúne com INCRA, CONDSEF, CNASI E ASSEMDA

Na segunda-feira, 21 de fevereiro, às 8h reuniram na Secretaria-Executiva do MDA os dirigente do MDA (o Ministro Afonso Bandeira, a Secretária-Executiva Márcia Quadrado, o Chefe de Gabinete Wellington Rezende e o Secretário-Executivo Adjunto Jerônimo Rodrigues) e do INCRA (o Presidente Rolf Hackbart) com os representantes do movimento sindical e associativo dos servidores da CONDSEF (Josemilton), da CNASI (Décio, Reginaldo, José Parente, Débora, Solange, Acácio, Joaquim, Jesus, Luiz, Conceição Oliveira e Cláudio Luiz) e da ASSEMDA (Március e Almir) para tratar das notícias sobre Reestruturação do INCRA.

A reunião foi aberta pelos representantes da CONDSEF e CNASI que cobraram dos gestores do MDA uma posição sobre as matérias divulgadas nos jornais da possível divisão da Instituição, como também da indefinição do MDA, no tocante a política de Reforma Agrária e ordenamento fundiário.

Questionamos a falta de interlocução do MDA com as entidades e os movimentos sociais. Aproveitamos para cobrar a outra agenda que trata das questões funcionais, como valorização e capacitação dos trabalhadores do INCRA e MDA.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

(Nota Pública) INCRA e MDA – Servidores unidos e em luta

 INCRA e MDA – Servidores unidos e em luta

O governo federal elegeu a erradicação da miséria no Brasil como prioridade de sua gestão. Miséria que se manifesta das mais variadas formas, apresentando diferentes vertentes, com destaque para a concentração de renda e para o analfabetismo, a manterem boa parte da nossa população a margem do provimento de seus direitos fundamentais assegurados pela Constituição, sumarizados pelo direito à vida com dignidade.
É de enorme importância atacar as causas da miséria e romper com essa deplorável realidade secular, injustificável ante os meios e recursos que possui o Brasil. Há que se pensar, para além das políticas compensatórias, em medidas que aplaquem em definitivo as causas da miséria, a exemplo da estruturação da agricultura familiar e de uma ampla reforma agrária.

As informações relativas à adoção de políticas agrárias pelo Estado até 2010, ratificam a importância do MDA e do INCRA para os processos de ordenamento da estrutura fundiária nacional e de desenvolvimento rural sustentável, tendo como instrumentos a reforma agrária e as ações de suporte ao desenvolvimento das comunidades tradicionais e dos trabalhadores em geral que habitam o meio rural brasileiro.

Porém, o ano de 2011 apenas começou e os servidores do INCRA e MDA olham com desconfiança as primeiras medidas do novo governo. E não é para menos. Sabemos bem o que as palavras "austeridade fiscal", "controlar os gastos públicos", "enfrentar o déficit da previdência", significaram em outros momentos – encobriram a realidade de extrema pobreza; favoreceu o ganho das elites através de mecanismos gerenciais do Estado, como a taxa de juros (as mais altas do mundo); e fomentaram a precarização do serviço público através da restrição dos gastos com políticas públicas e arrocho salarial dos servidores. Esperamos que este não seja o caso. Esperamos que o governo leve em conta o aumento populacional e o crescimento das demandas pela ampliação dos serviços públicos.

Nós servidores do INCRA e MDA, por sua vez, reafirmamos o nosso compromisso com a sociedade, de erradicação da extrema pobreza no meio rural e de estruturação de políticas públicas com valorização dos seus servidores. E defendemos para isso:

1. Um Plano Nacional de Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural Sustentável, elaborado conjuntamente com os movimentos sociais e representações do meio rural;

2. Estruturação do INCRA e do MDA, com melhorias nas condições de trabalho, ampliação do quadro atual de servidores através de concurso público e recomposição das tabelas remunerativas com isonomia entre os servidores;

3. Planejamento e gestão democrática das atividades realizadas no INCRA e MDA.


ASSEMDA (Associação Nacional dos Servidores do MDA)
CNASI (Confederação Nacional dos Servidores do INCRA)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

África - última fronteira agrícola

José Graziano da Silva

Há uma fronteira agrícola cujo potencial transformador poderá decidir o sucesso ou o fracasso da luta contra a fome e a miséria no século XXI: África.

Qualquer fórum relacionado à segurança alimentar e ao combate à miséria terá que levar em conta o peso descomunal desse continente de 800 milhões de habitantes, onde o sempre desconcertante entrelaçamento entre riquezas naturais e miséria atinge níveis superlativos.

Diferentes pontos de fuga - não raro impositivos, violentos - serviram muitas vezes para protelar decisões estratégicas sobre o seu destino, sem considerar as urgências de seu povo.

Mais que nunca, o colapso de 2007/2008 (que ameaça repetir-se em 2011) reafirmou que a questão estrutural da pobreza e do desenvolvimento terá que ser enfrentada, em primeiro lugar, com o empenho da cooperação entre os principais interessados na sua equação: governos e a cidadania das nações mais vulneráveis, mobilizando - sobretudo - seus próprios recursos.

É nesse cenário que se renova a importância e a centralidade da agricultura familiar na reordenação da luta contra a fome em nosso tempo. Oito dos nove países mais devastados pela subnutrição localizam-se no continente africano. Neles, a vida de 200 milhões de homens e mulheres encontra-se raptada pela rotina da insegurança alimentar. A maioria esmagadora vive em zonas rurais - a exemplo do que ocorre no resto do planeta, em que 70% da humanidade faminta concentra-se em pequenas propriedades agrícolas.

A grande diferença é que a África, ao lado da América Latina, é o lugar do mundo em que se encontra a última e preciosa fronteira de expansão agrícola das próximas décadas. Explorá-la diretamente em benefício da segurança alimentar de seus habitantes, ou ser recolonizado por ela é uma escolha política que não admite mais hesitação.

A experiência recente tem lições a ensinar.

A agenda dos anos 90 - com seu repertório de privatizações, Estado mínimo e renúncia às políticas de segurança alimentar - não entregou o que prometeu. A abertura comercial unilateral e indiscriminada revelou-se um desastre para as frágeis agriculturas dos países africanos mais pobres.

Os relatos são pedagógicos. Os subsídios maciços dados aos produtores de algodão dos Estados Unidos, por exemplo, da ordem de US$ 25 bilhões desde 1995, reduziram drasticamente as cotações do produto durante anos. Quase 10 milhões de produtores africanos tiveram prejuízos devastadores no Benin, em Burkina Faso e no Mali.

Na África subsaariana, a expectativa de vida resultante do ciclo neoliberal regrediu aos níveis do início da década de 1970. Desastres climáticos e conflitos fratricidas contribuíram significativamente para agravar essa regressão. O mais grave, porém, é que ali onde sobreveio o infortúnio não havia Estado, planejamento, nem estoques de alimentos para mitigá-lo.

Nos últimos 20 anos, a produção de grãos registrou um crescimento médio de apenas 2,5% nos países africanos enquanto a população cresceu acima disso. E as importações aumentaram, em média, 3,5% ao ano. Estamos falando de um continente que utiliza apenas 14% dos 184 milhões de hectares de terras agriculturáveis de que dispõe.

Se considerarmos a Savana africana, que corta 25 países e guarda profundas semelhanças com o Cerrado brasileiro, a conta vai a 400 milhões de hectares. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), já identificou 35 projetos de cooperação em 18 países africanos e poderá aportar US$ 12,8 milhões em parcerias para transferência de variedades de cultivares, bem como de tecnologias adequadas à agricultura tropical.

Esse potencial cooperativo requer, em primeiro lugar, uma decisão estratégica de devolver às políticas de segurança alimentar a centralidade que elas nunca deveriam ter perdido no processo de desenvolvimento. Não estamos partindo do zero. A África dispõe de um banco de investimento e sedimentou políticas como a Nova Parceria para o Desenvolvimento da África (NEPAD) e o Programa Abrangente para o Desenvolvimento Agrícola Africano (CAADP).

Há, portanto, base fértil a ser semeada pela ação multilateral. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) reformou-se, vem fortalecendo suas oficinas regionais para intensificar sua presença como parceira e ponte facilitadora de um grande mutirão de solidariedade produtiva entre Brasil, África e os países da América Latina. É necessário frisar: para que essa empreitada tenha êxito, governos e organizações locais terão que resgatar a agenda da soberania alimentar.

A lógica dos mercados desregulados, que arruinou o sistema financeiro internacional e dissolveu os estoques de segurança alimentar das nações - ademais de subordinar o abastecimento de muitas delas aos impulsos erráticos das cotações especulativas - não se mostrou um método adequado para conduzir a bom termo a luta pela segurança alimentar. Insistir nesse caminho seria repetir em 2011 os mesmos erros que deram origem ao colapso de 2007/2008. A um custo em fome e miséria que não temos o direito de legar às futuras gerações.

José Graziano da Silva é representante regional da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação - FAO para América Latina e Caribe, em licença do cargo para concorrer à direção-geral da organização.

Artigo publicado no Valor Econômico

Graziano defende regulação de commodities

Luciano Máximo de Brasília para o Valor Econômico

Se conseguir chegar à direção-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), o brasileiro José Graziano da Silva vai trabalhar para ajudar as autoridades internacionais a estabelecer uma regulação no mercado global de commodities, profundamente afetado pela inflação nos últimos meses com a disparada dos preços dos alimentos. Em entrevista ao Valor, o ex-ministro extraordinário de Combate à Fome do governo Lula, candidato do Brasil no processo sucessório da FAO em junho deste ano, afirma que a "financeirização" dessa atividade precisa ser disciplinada.

Para Graziano, o encarecimento dos alimentos é hoje um problema estrutural que não se resolve no curto prazo. Segundo ele, a FAO vinha chamando a atenção para a questão e cobrando o aperto das regras desde o estouro da bolha de preços em 2007. Especulação, redução dos estoques mundiais e questões climáticas são os vilões, diz. "Em mercados desregulados, isso faz aumentar a volatilidade: quando o preço está subindo a financeirização empurra mais para cima e quando está descendo, empurra mais para baixo. Em 2007, a FAO falou que [a crise dos alimentos] ocorreria de novo se nada fosse feito, e praticamente nada foi feito em termos de novas regulações desses mercados."

Nas semanas que antecederam a reunião de ministros de Finanças do G-20, que começa hoje em Paris, o tema rendeu discussões acaloradas entre Brasil e França. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, chegou a cogitar a criação de estoques internacionais e mecanismos para tabelar os preços das commodities. As propostas foram prontamente rechaçadas pelas autoridades brasileiras, que são contrárias à ideia de fixar preços e receiam que a formação de estoques receba subsídios.

Ao pregar maior regulação no setor, Graziano garante que não vai contra a orientação do governo brasileiro. "Para se ter liberdade é preciso ter regras, dizer o que pode e não pode fazer, senão vira uma bagunça que somente beneficia uns poucos especuladores", comenta. Ele revela que discutiu o assunto na semana passada no Ministério da Agricultura francês e na sede da FAO, em Roma. Segundo ele, Paris não fechou sua posição e analisa estudos da FAO sobre o assunto. "Limite dos derivativos, estoques virtuais e mecanismos financeiros para poder intervir em momentos de muita alta e muita baixa estão sendo discutidos", explica.

Apesar de a polêmica envolver a FAO, Graziano ressalva que decisões nesse campo cabem à Organização Mundial de Comércio (OMC). A função da FAO é prestar assistência técnica para a implementação de políticas na área agrícola e de segurança alimentar, além de municiar os 191 países-membros com dados e conhecimento. A consolidação de informações produzidas pela FAO e outros órgãos internacionais é um dos pilares da campanha de Graziano, juntamente com outros quatro tópicos: erradicação da fome, expansão sustentável da produção de alimentos, fim da reforma institucional e reformulação financeira.

Uma das promessas de Graziano é mudar o perfil de financiamento da FAO, com espaço para maiores doações dos países do hemisfério Sul, que passariam a ganhar mais benefícios da cooperação multilateral da FAO. "Os países desenvolvidos são os grandes doadores da FAO, mas sabemos que nos próximos anos eles vão enfrentar sérias restrições fiscais. Grandes doadores como a Espanha cortaram ajuda nos últimos anos e isso deverá ser uma tendência", diz Graziano.

O agrônomo brasileiro, que está licenciado da direção da FAO para a América Latina e Caribe para disputar a eleição, também busca apoios com a promessa de terminar a reforma da organização, que já dura dez anos. O foco das mudanças institucionais pretendidas por Graziano é a descentralização e a desburocratização. "É preciso dar mais poder aos escritórios regionais, sub-regionais e os próprios países. Hoje se o Brasil quiser fazer uma doação, ele precisa mandar o dinheiro para Roma, e esse dinheiro volta para ser gasto no Brasil."

Outro desafio de Graziano é posicionar a FAO para contribuir com a expansão da produção de alimentos de forma sustentável. Segundo ele, até 2050 alguns setores da agricultura precisarão aumentar 70% e até 100% a capacidade produtiva. "O impacto disso sobre o ambiente já é conhecido, principalmente com a pecuária. Temos que achar um jeito de juntar tecnologias hoje disponíveis e menos agressivas: o cultivo direto do solo, por exemplo, sem arar."

Indicado para substituir o atual diretor-geral da FAO, o senegalês Jacques Diouf, pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Graziano conta com o engajamento da presidente Dilma Rousseff em sua campanha. Ela tem mencionado a candidatura do ex-ministro criador do programa Fome Zero em todos os seus contatos bilaterais e elevou a campanha ao nível de prioridade da diplomacia brasileira.

Num planeta superlotado, há espaços desperdiçados

Por Tatiana Achcar no site Yahoo.com.br

O mundo tem quase 7 bilhões de pessoas e um pouco mais da metade vive em áreas urbanas. Quando a sua avó era criança, há uns 70 anos, apenas um terço dos brasileiros vivia nas cidades. De lá para cá, a indústria brasileira cresceu, estradas e telecomunicações integraram o país e nos transformamos numa das nações mais urbanizadas do mundo, com 85% de casas erguidas em zonas urbanas. Não estamos sozinho no foguete do crescimento. O movimento de gente que, a cada dia, se muda para cidades em busca de oportunidade de trabalho e renda, acesso à saúde, educação e cultura é global e acontece extremamente rápido nos países em desenvolvimento.

Com 80% da população de todo planeta vivendo em cidades em 2050, quem vai ficar no campo e produzir o nosso alimento? Máquinas, oras! É simples: desmate a vegetação nativa, despeje trilhões de sementes de um único tipo de alface em fileiras a perder de vista. Deixe tudo retilineamente organizado, asséptico, como caixinhas longa vida na prateleira do supermercado. Fertilizantes e pesticidas químicos, feitos à base de petróleo, adubam a terra e matam todo tipo de micro vida além do alface. Nenhuma praga no campo, nem passarinho, nem abelhas. Nada de roedores, minhocas, plantas daninhas. A isso dá-se o nome de monocultura. Em nome da alta produtividade, ela detona o solo, deixa a terra mais pobre que areia de canteiro de obras, suga toda a água da região e, se faltar, toma de fontes naturais vizinhas. Acaba com a fauna – que bicho que se preze vai viver em imensa monotonia? – e empobrece a flora nativa. Transfigura a natureza, enfim.

O alface é colhido, encaixotado, percorre quilômetros e mais quilômetros até a cidade, chega no distribuidor, vai para o mercado ou para a feira e então chega a sua casa. Do campo ao prato, o alface perdeu frescor, sabor, vitalidade e ajudou a queimar muito combustível. Batata, laranja, banana, feijão, tomate… ingredientes de uma dieta de baixa qualidade nutricional e muito CO2.

Enquanto as cidades explodem em asfalto, prédios, fumaça, alagamentos e carência de natureza, as regiões rurais viram deserto de gente, de recursos econômicos e naturais, de investimento de todo tipo. Há um descompasso nesse cenário. Mas há soluções, e muitas não são novas, estão apenas repaginadas para o tempo atual.

Já ouviu falar em agricultura urbana? É tão antiga quanto o nascimento das cidades, quando os limites entre rural e urbano não eram definidos. Todo mundo plantava e ninguém morria desnutrido ou deprimido. Minha avó tinha lá no seu quintal, num espaço meio bagunçado, alguns pés de milho, que sustentavam o feijão trepadeira, que fornecia nitrogênio ao solo, enquanto as grandes folhas de abóboras protegiam a terra do sol e chuvas fortes. Ordem num aparente caos. Podia chover cântaros que tinha terra suficiente para absorver a água. Tinha sombra, passarinho, abelha, flores, aroma. Quando dava muita mexerica, ela trocava com a vizinha por tomate. O quintal da minha avó ganhou cimento, uma casa nova e uma plaquinha de “aluga-se” e, como tantas outras, a horta desapareceu da cidade.

Diante da necessidade urgente de intervir, de forma ativa, na saúde das pessoas e das cidades e de harmonizar a satisfação de nossas exigências com as possibilidades do planeta, as hortas urbanas estão voltando. É prático, é saudável, é barato, é bonito.

Nos Estados Unidos, para combater os efeitos da crise econômica e a obesidade, a prefeitura de São Francisco, na Califórnia, instalou um imenso jardim comestível bem no centro. Queria incentivar a população a cultivar alimentos orgânicos, saborosos e locais e se alimentar melhor. Por três meses, milhares de pessoas visitaram o Victory Garden, ou Jardim da Vitória, e desfrutaram da beleza de um espaço natural no coração da cidade.

A primeira dama americana Michelle Obama gostou da ideia e instalou uma horta educativa na Casa Branca. Todos os dias, crianças de escolas públicas aprendem a observar os ciclos da natureza, da semente à colheita, da transformação de talos e cascas em adubo que fertiliza o solo para a nova plantação. Ciência na prática. Com um plano de produção de alimentos orgânicos e locais, Londres saiu na frente na disputa entre as candidatas a sediar as Olimpíadas. Num projeto ambicioso, uma força tarefa envolvendo moradores, governo, empresas e organizações comunitárias está criando duas mil hortas urbanas que irão abastecer a cidade durante os Jogos Olímpicos de 2012.

O potencial da agricultura urbana no Brasil é enorme: além da terra boa e do clima favorável, é fonte de renda para a população carente e uma atividade que pode devolver o ânimo para um monte de profissional de alto nível que não encontra mais sentido somente nas grandes corporações.

Na zona leste de São Paulo, o projeto Cidades Sem Fome espalhou 23 hortas comunitárias que hoje geram renda de 500 a mil reais para quase 700 pessoas que viviam na pobreza. Em Florianópolis, um projeto de compostagem ajuda a diminuir as doenças causadas pelo lixo em um dos bairros mais pobres da cidade. Na Revolução dos Baldinhos, o lixo orgânico é recolhido de casa em casa, vai para a compostagem e retorna como abudo do bom para a população, que planta temperos e flores onde dá: no corredor lateral, em cima do canil, no telhado, em latinhas, potinhos, vasos, no canteiro central da rodovia.

Nos bairros mais nobres das cidades, onde a especulação imobiliária avança como o fogo de um dragão, iniciativas isoladas tentam suceder aqui, ali. Mas elas podem ganhar força e crescer. Sabe aquele terreno abandonado perto da sua casa ou a caminho do trabalho? Converse com o dono, ele pode topar emprestar a terra para uma horta comunitária. Antes que vire prédio. Ou um lixão

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

NOVO MINISTRO


Após um longo processo, em que cerca de seis nomes foram cogitados para assumir o Ministério, a presidenta Dilma Rouseff escolheu o deputado federal baiano Afonso Florence para ocupar o cargo de ministro do desenvolvimento agrário. Historiador e ex-secretário de desenvolvimento urbano do estado da Bahia, ligado a corrente política do ex-ministro Guilherme Cassel.

O demorado processo de escolha do ministro (o MDA foi o último ministério a ter o nome do titular definido) denota que as políticas públicas executadas nos últimos anos (e os números do censo agropecuário corroboram essa hipótese) foram vitoriosas no sentido de viabilizar a pequena e média agricultura e o reordenamento fundiário como parte da estratégia de desenvolvimento brasileiro, o que acendeu a cobiça de diferentes correntes políticas pelo Ministério.

Contudo, apesar de vitoriosa a política de desenvolvimento rural precisa dar um passo adiante, e o caminho a seguir foi dado pela presidenta Dilma quando elegeu a eliminação da pobreza extrema como objetivo de todo o governo federal, cabendo um importante papel ao MDA, devido à sua área de atuação: o meio rural, em que a pobreza geralmente assume proporções alarmantes.

O corpo de servidores do MDA pode contribuir para esse “passo adiante”, sendo, no entanto, necessário que o Ministério valorize seus servidores. A ASSEMDA saúda o novo Ministro, ao tempo que reitera o pedido de audiência com ele e enumera abaixo os 11 principais pontos de reivindicação dos servidores do MDA:

1) Plano de Cargos e Remuneração

2) Diálogo permanente entre Servidores e Administração

3) Melhoria nas condições de trabalho

4) Plano de Formação e Qualificação

5) Ampliação do quadro de servidores efetivos do MDA

6) Qualidade de Vida do Servidor

7) Política de realocação de servidores

8) Universalização da GSISTE na área de PMA e aumento das gratificações no âmbito do MDA

9) Isonomia Salarial entre os servidores

10) Aumento na participação do MDA no Orçamento Geral da União (OGU)

11) Planejamento participativo

Ajuste fiscal de Dilma não toca nos verdadeiros vilões. MDA fica com migalhas. Servidores e população são penalizados

Saiu o primeiro ajuste fiscal do Governo Dilma, e é mesmo pior do que se temia. O ministro Guido Mantega, da Fazenda, e a ministra Miriam Belchior, do Planejamento no dia 9 de fevereiro um aperto fiscal 2x maior que Lula. Dilma inicia seu governo retirando R$ 50 bilhões do Orçamento de setores não-financeiros, sem mexer nos recursos do PAC. Um valor que corresponde a 70% do gasto previsto em 2011 para a Saúde e 93% para a Educação.

Os cortes de R$ 50 bi no Orçamento de 2011 anunciada tendem a ser definitiva. E não haverão concursos públicos nem convocações de já aprovados e nenhum reajuste aos servidores. Porém, o detalhamento do corte e a priorização da redução dessas despesas só devem sair depois, após uma avaliação de cada caso, com ministérios e programas que podem ter mais perdas do que outros. E o salário mínimo defendido pela equipe econômica é o ridículo valor de R$545.

Contudo, o verdadeiro vilão das contas públicas é o endividamento público, que em 2010 consumiu 7,19% do PIB em juros e amortizações, mais que qualquer gasto social. Por sua vez, o auto-aumento de cerca de 60% para os senadores e deputados federais e de 130% para os ministros e a presidente da República eleva em R$ 1,8 bilhão as despesas só na esfera federal. Só com este valor, seria possível aumentar o salário mínimo em mais R$ 6.

CAMPANHA SALARIAL UNIFICADA DOS SERVIDORES FEDERAIS

O ano de 2011 será de dificuldades na luta dos servidores, em particular na questão salarial, devido ao já referido aperto fiscal e o ressurgimento da proposta de congelamento dos gastos com pessoal no governo federal. Dessa forma é urgente a integração do movimento dos servidores do MDA com o das outras categorias do serviço público federal na Campanha Salarial 2011. Mais do que uma campanha por reajustes salariais, a mobilização dos servidores federais se reveste de resistência em defesa do serviço público e de seus servidores contra as medidas que o governo anunciou.
A Condsef (Confederação dos Servidores Federais), com o apoio da CSP-CONLUTAS, CUT, CTB, INTERSINDICAL, convoca todos os servidores públicos federais para participar do ato de lançamento da Campanha Salarial Unificada, na próxima quarta-feira, dia 16 de fevereiro, na Esplanada dos Ministérios com uma marcha pela Esplanada dos Ministérios e um grande Ato Público em frente ao Congresso Nacional. A marcha será precedida de uma assembleia no Espaço do Servidor, às 8h30, para a eleição de delegados à Plenária da Condsef, que acontece na quinta-feira, dia 17.02.

Eixos da Campanha Salarial 2011
- Data-base para 1° de maio
- Contra qualquer reforma que retire direitos dos trabalhadores;
- Regulamentação/Institucionalização da negociação coletiva no setor público e direito de greve irrestrito;
- Retirado dos PLP’s, MP’s, Decretos contrários aos interesses dos servidores públicos (PLP 549/09, PLP 248/98, PLP 92/07, MP 520/09 e demais proposições);
- Cumprimento por parte do governo dos acordos firmados;
- Paridade entre Ativos, Aposentados e Pensionistas;
- Política salarial permanente com reposição inflacionária, valorização do salário base e incorporação das gratificações;
- Salário mínimo de R$ 580,00;
- Correção da tabela do Imposto de Renda.

Calendário

Dia 15.02 (terça-feira)
- Reunião da Comissão Organizadora da Manifestação
- Distribuição de “Carta aos Parlamentares” no Congresso Nacional

Dia 16.02 (quarta-feira)
- Pela manhã bem cedo – Chegada das caravanas com concentração na Catedral de Brasília;
- 9h – Deslocamento em marcha pela Esplanada dos Ministérios e panfletagem da “Carta aberta à população”. Breve parada em frente ao Ministério do Planejamento (SRH) para algumas falas;
- 10h30 – Início do ato na frente do Congresso Nacional.

Dia 17.02 (quinta-feira)
- Plenárias Nacionais Setoriais das categorias.

Dia 18.02 (sexta-feira)
- Reunião Ampliada das Entidades Nacionais.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Alta de alimentos põe 44 milhões de pessoas na pobreza

Estadão.com

O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, disse nesta terça-feira que a alta global nos preços dos alimentos atingiu níveis perigosos que podem complicar as frágeis condições políticas e sociais no Oriente Médio. Ele advertiu também que seu impacto da alta também ameaça a Ásia Central.

Dados do Banco Mundial publicados nesta terça-feira mostraram que preços mais altos dos alimentos levaram 44 milhões de pessoas à extrema pobreza desde junho de 2010, em países em desenvolvimento.

Zoellick disse que apesar de os altos preços dos alimentos não serem a principal razão que levou aos violentos protestos no Egito e na Tunísia, foi um fator agravante. E, segundo ele, a situação pode ficar pior.

Ele alertou que o acentuado aumento nos preços dos alimentos pela Ásia Central poderá também ter impactos sociais e políticos para essa região.

"Não há espaço para complacência", disse Zoellick. "Os preços globais dos alimentos estão em níveis perigosos, e também está claro que os recentes aumentos dos preços estão causando dor e sofrimento na população pobre ao redor do globo".

O relatório do Banco Mundial foi anunciado dias antes do encontro do G20 em Paris, onde preços mais altos dos alimentos serão discutidos.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

MDA E SEAGRI DISCUTEM DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO

Do site Bahia Notícias




O ministro do Desenvolvimento Agrário, Afonso Florence, recebeu nesta terça-feira (15), em Brasília (DF), o secretário da Agricultura da Bahia (Seagri), Eduardo Salles, para discutir parcerias e ações conjuntas para o desenvolvimento agrário no estado. Durante a audiência, Florence ressaltou que o Ministério do Desenvolvimento Agrária (MDA) vai discutir com todos os estados iniciativas e parcerias de combate à pobreza extrema e o estímulo à produção da agricultura familiar, mas com especial atenção à região Nordeste. “Brevemente, estaremos anunciando ações voltadas para combater a pobreza rural e adensar a carga produtiva, o crédito e a assistência técnica na Bahia”, afirmou o titular do MDA. Ele também destacou a importância da ação conjunta do ministério com as secretarias do governo baiano e a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA) para estimular o desenvolvimento agrícola no estado, ação esta que, segundo ele, foi reforçada pelo secretário Eduardo Salles. A audiência também contou com a presença do secretário estadual de Desenvolvimento e Integração Regional (Sedir), Wilson Brito, do superintendente de Agricultura Familiar da Seagri, Wilson Dias, e de representantes da EBDA.

Falta de alimentos passa a influir no xadrez geopolítico

Gustavo Faleiros para o Valor Econômico, de Londres
15/02/2011

"World on the Edge"
Lester Brown. Earthscan. 144 págs.

Alguém que já tenha lido livros ou artigos de Lester Brown quase sempre se admira com a capacidade do ambientalista americano de relacionar dados aparentemente desconexos. Foi assim também na conversa, numa tarde cinzenta de janeiro, em Londres, em que falou ao Valor sobre as mudanças climáticas e a alta recorde nos preços dos alimentos. Aos 76 anos, Brown (que é agrônomo) já não lidera o renomado Worldwatch Institute, que fundou e presidiu por 26 anos. Agora, porém, à frente do Earth Policy Institute, parece cada vez mais reconectado com as causas que o levaram ao ambientalismo. Ele acaba de lançar "World on the Edge", um ensaio com indicadores sobre segurança alimentar e questões ambientais. Nesse livro ele também apresenta o que tem chamado de "plano B", uma estratégia radical para mudanças na economia mundial.
A seguir, os principais trechos da entrevista.


Valor
: Em seu livro, o senhor afirma que a atual alta nos preços dos alimentos parece mais uma tendência do que um evento isolado. O que sustenta essa análise?

Lester Brown
: Estamos passando por uma situação interessante em termos de economia dos alimentos. Em 2010, tivemos um déficit de mais de 50 milhões de toneladas. Quando você combina isso com as projeções de aumento da demanda para este ano - de mais de 14 milhões de toneladas - isso significa que a colheita de grãos tem que ser quase 100 milhões de toneladas maior, só para se ficar na mesma situação, não para reduzir os preços ou restabelecer os estoques. Há dois fatores notáveis no mercado de grãos. O primeiro é que pessoas dessa área, seja num país importador, ou exportador, ou um "trader", estão começando a entender o que os cientistas querem dizer com maior ocorrência de eventos extremos no clima. A onda de calor na Rússia no ano passado foi um exemplo. A média de temperatura em Moscou ficou 7,6 graus centígrado's acima do normal. É algo que nunca se tinha tinha visto acontecer. O segundo é que a China está entrando no mercado de outros grãos, como fez com a soja anos atrás. A China tomou a decisão de sacrificar a produção de soja há 15 anos, enquanto estimulava o cultivo de outros grãos, por meio de apoio técnico. Não fizeram nada pela soja. Como resultado, em 1995, a China produziu e consumiu 14 milhões de toneladas de soja. Em 2010, produziu 14 milhões de toneladas e consumiu 70 milhões de toneladas, ou seja, teve que importar 56 milhões de toneladas, equivalentes a 80% do seu consumo.

Valor: Também parece haver perda de terras agricultáveis...

Brown: Sim, a uma taxa recorde, por causa do aumento da frota de carros. Há alguns anos, a venda de carros era de 5 a 7 milhões/ano. Para este ano, a projeção é de 20 milhões. Para acomodar 20 milhões de carros, são necessários no mínimo 100 mil hectares. Você precisa de espaço para estacionar, dirigir, estacionar no destino. Quando se adicionam carros, pavimenta-se solo e perde-se terra agricultável. Então, está chegando o momento em que a China está se dando conta de que terá que entrar no mercado mundial em busca de grãos. Acho que eles estão avaliando o melhor momento de fazer isso, para não assustar o mercado. Mas a questão é: já não existe um melhor momento. Em qualquer hipótese, terão que ir aos Estados Unidos para importar. E a ideia de competir com 1,4 bilhão de chineses por grãos não agrada aos americanos. Isso seria totalmente novo: nunca os Estados Unidos se preocuparam com segurança alimentar, e isso agora pode se tornar realidade da noite para o dia. A escassez de alimentos começa a fazer parte da nova geopolítica.

Valor
: O presidente Nicolas Sarkozy disse recentemente que o G20 deveria direcionar os governos a intervir no mercado e conter a alta de preços dos alimentos. O que realmente pode ser feito?

Brown: Os governos estão lidando com os sintomas e não com as causas do problema. Não estão lidando, por exemplo, com o alto consumo de água na produção agrícola. Tampouco estão lidando com a questão da população. Todos acham que podemos continuar adicionando 80 milhões de pessoas por ano ao mundo sem saber como alimentá-las. Também não se fala da competição entre carros e grãos. Como um consumidor americano, não estou feliz em subsidiar o aumento de preço dos alimentos. Pois é isso que estamos fazendo, quando subsidiamos a produção de etanol à base de milho. É com isso que os governos têm que lidar. Mas o que eles estão tentando fazer é colocar teto no preço dos grãos, nos óleos vegetais, no açúcar. Os países exportadores tentam barrar a saída dos bens, os importadores baixam tributos para tornar mais fácil a entrada dos produtos. Mas ninguém ouve Sarkozy falando de mudanças climáticas, população ou erosão dos solos.

Valor
: Avanços tecnológicos não poderiam ser a solução para o problema? Qual seria o papel dos transgênicos?

Brown
: As companhias envolvidas gostam de justificar a modificação genética como uma solução para o problema da fome mundial, dizendo que a produção vai dobrar. Na verdade, o que já foi feito em termos de cruzamentos tradicionais garantiu a duplicação, a triplicação das lavouras entre os anos 1960 e 80. Os aumentos foram dramáticos e não houve transgenia envolvida. O que mais pode ser feito para aumentar a produtividade? Sinceramente, já fizemos quase tudo que era possível, pressionamos até mesmo o limite da capacidade fotossintética das plantas. Isso me lembra os limites dos corredores. Antigamente, corria-se uma milha (aproximadamente 1,6 km) em 6 minutos. Depois, em1894, na primeira Olímpiada moderna, em Atenas, baixou-se essa marca a menos de 5 minutos. Em 1952, Roger Bannister correu uma milha abaixo de 4 minutos e desde então ninguém chegou a falar que um dia chegaremos a menos de 3 minutos. Atingimos nosso limite fisiológico. A mesma coisa acontece com plantas: pode-se fazer um pouquinho mais ali e aqui, mas não muito mais.

Valor
: Em seu livro, o senhor propõe um "plano B", bastante ambicioso, como solução para os problemas que enfrentamos: o corte de 80% das emissões de carbono até 2020. Será de fato possível difundir a aceitação dessa proposta?

Brown
: Não acho que exista um indicador mais sensível do que o preço dos alimentos. Talvez nem todos entendam sobre gases de efeito estufa e temperatura global, mas todos compreendem o aumento no custo da alimentação. Se ficar claro - e acho que ficará bem cedo - que mudanças climáticas são responsáveis pelo aumento do preço dos alimentos, vai ser difícil não notar o que está acontecendo. Quando começarmos a assistir ao jornal na TV mostrando situações como vimos na Rússia neste verão, a percepção vai ser de que soltamos um monstro e que para estabilizar o clima vamos precisar prendê-lo novamente. Para mim, salvar a camada de gelo da Groenlândia é uma metáfora para salvar a humanidade. Se deixarmos que as concentrações de carbono sejam altas o suficiente para que a temperatura do planeta derreta toda a Groenlândia, teremos sete metros de aumento do nível do mar. Um de meus medos e que nós já tenhamos passado do ponto em que será possível fazer algo. Mas temos que ter esperança e nos unir.